sexta-feira, 6 de junho de 2014

Coluna Espaço do Seridó - Jornal Correio do Seridó


Caro leitor, gostaria de saudá-los e dizer da satisfação de está inaugurando essa coluna informativa nesse conceituado jornal. Traremos entre muitas reportagens, reflexões acerca da construção da identidade seridoense, dos homens e acontecimentos do passado, procurando fugir um pouco da história tradicional (dos grandes homens, dos grandes fatos). Enveredaremos pelo novo, pelos espaços da mentalidade popular e dos acontecimentos que insistem em permanecer escondidos no passado da particular história do Seridó potiguar.

A MISSÃO PEARSE – OS INGLESES NO SERTÃO DO SERIDÓ
Ingleses narram dificuldades em chegar aos baixios, abandonam os carros e seguem a pé.  Foto: Relatório da Missão Pearse, Manchester – Inglaterra.

O algodão foi em tempos de auge de produção o principal produto da economia potiguar, concorrendo historicamente com a cana-de-açúcar, chegando a ser um dos principais produtos brasileiros de exportação.

O Seridó entrou no mercado regional e nacional pela cotonicultura e se tornou conhecido pela fibra longa e a boa qualidade do seu algodão, o “mocó” ou “Seridó”. Em 1921, durante o governo do Presidente Epitácio Pessoa, esteve no Brasil uma expedição inglesa do algodão, supostamente articulada pelo próprio presidente paraibano. Essa expedição percorreu alguns estados brasileiros e tinha por objetivo conhecer as condições e a potencialidade do país para a produção algodoeira. A decisão de enviar a Missão para o Brasil teria partido de uma reunião em Paris e confirmado em Zurique que sediava no ano de 1919 o X Congresso Internacional do Comitê do Algodão, com presença de representação brasileira. 

Conforme o que foi acertado durante o evento os membros da missão comandada por Arno S. Pearse chegaram ao Brasil em 1921 e neste mesmo ano percorreram diversos Estados da federação, partindo de São Paulo até chegar ao Rio Grande do Norte. Mas, o que de fato chamava a atenção dessa caravana para o estado? Provavelmente, a existência de uma intensa produção e as notícias sobre um algodão de fibra longa, originalmente potiguar, particularmente seridoense, o algodão mocó. 

Em maio de 1921, a Missão Pearse visitava os campos de cultivo do mocó na região do Seridó, era inverno. A sua passagem pelo atual município de São José do Seridó está descrita no relatório. Pearse refere-se ao lugar como “Valle de São José”, seguindo um trajeto, estiveram nas fazendas do município de Caicó e da Fazenda São Nicolau, seguiram até a pequena aldeia:

“Nós montamos através do Valle de S. José do Seridó para uma aldeia chamado Bonita (300 metros acima do nível do mar). Antigamente, era chamado S. José do Seridó. Neste vale rico, 55 km. de comprimento e 300metros de largura, todas as terras baixo-(chamado de “Baixos”) foram cultivadas com “Moco” algodão. De Bonita obtém-se uma magnífica vista praticamente todo o território do “Seridó” zona, rodeada por uma vasta anfiteatro de montanhas.” (RELATÓRIO)

Essas informações são historicamente muito importantes e assumem um caráter inovador na historiografia do Seridó, tendo em vista a pouca ou até mesmo inexistente referência a sua existência. 

   Arno Pearse, autor do relatório refere-se a São José como um vale rico, tendo em vista, aprioristicamente, a grande produção já existente nos baixios bonitenses. 

   Os ingleses consideraram o algodão mocó, o melhor algodão do mundo, superando o egípcio, em fibra. Sugeriram também que fosse criada uma fazenda de seleção de sementes do mocó, sob pena do original perder a essência ao hibridar-se com outras espécies.

Melquides José de Oliveira Medeiros, 24 anos. Graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pesquisador da História econômica do Seridó.

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